Depois de um grande tornado, Kentucky busca esperança neste Natal

Dawson Springs (Estados Unidos) (AFP) – Normalmente esta é uma época alegre, mas em um Kentucky devastado por um tornado, milhares de famílias passam por uma crise dias antes do Natal. Entre elas, a de Andrew Humphrey, de 13 anos, recentemente desabrigado pela pior tempestade da história do estado americano.Mexendo nos destroços de onde ficava seu apartamento na pequena cidade devastada de Dawson Springs, Andrew e seus dois irmãos adolescentes mais velhos se juntaram na terça-feira a muitos outros na tediosa e dolorosa tarefa da limpeza pós-desastre.Canções, Papai Noel e enfeites de árvore de Natal são luxos longínquos por enquanto.”Não estou muito preocupado com o Natal ou os presentes”, disse à AFP o jovem, usando um boné cinza e luvas de trabalho laranja neon. Ele acrescenta que se sente sortudo por ele e sua família terem escapado com vida. “Estou preocupado em conseguir uma casa”, afirmou.A ansiedade do fim do ano disparou para as famílias atingidas pela destruição dos tornados de sexta-feira, que deixaram pelo menos 74 mortos em Kentucky, no sudeste dos Estados Unidos, e milhares de desabrigados, mergulhando os residentes em um limbo profundo.Desesperada para aliviar um pouco o estresse e colocar sorrisos nos rostos das crianças que ficaram com muito pouco ou nada, a esposa do governador Andy Beshear, Britainy, anunciou na terça-feira um programa de doação de presentes em todo o estado. As doações já estão chegando a todo vapor.Na delegacia de Paducah, uma cidade próxima poupada da ira do tornado, centenas de presentes – bicicletas, bonecas Barbie, trenzinhos, skates, livros – estão embalados aguardando um grande esforço de distribuição que começa na próxima semana, a tempo do feriado.Após alguma insistência, Andrew, um ávido jogador online, conta que adoraria substituir seu console, que provavelmente foi danificado pela água na tempestade.“Seria bom conseguir um novo Xbox e uma TV”, admite ele, enquanto sua mãe olha e sorri.- Celebrar “onde quer que estejamos” -Ginny Watts, cuja filha, Cavvy, fez quatro anos um dia antes do tornado, diz que a menina sabe que sua casa está “estragada”, mas não consegue entender a magnitude do desastre ou como isso pode impactar seu Natal.“Só espero que possamos torná-lo especial de alguma forma”, declara à AFP Watts, de 37 anos, do lado de fora de sua casa, que havia sido reformada recentemente, mas agora está destruída.Quando Cavvy pergunta sobre a visita do Papai Noel, Watts diz que a tranquiliza: “Querida, vamos receber o Papai Noel onde quer que estejamos”.“A essa altura, todos nós sabemos sobre o que é o Natal”, diz ela, destacando a importância espiritual do feriado. “Não é necessariamente sobre os brinquedos e tudo o mais”.Do outro lado da rua, Debbie Cancler, de 69 anos, vasculha os destroços de sua casa, recolhendo e guardando lembranças, como fotografias antigas.Embora sua casa tenha sido arrasada, ela milagrosamente encontra intactos vários conjuntos de pijamas que comprou como presente para seus filhos e quatro netos.Ao celebrar a normalidade do Natal, aponta Cancler, seus netos “terão talvez 30 minutos sem preocupações” com o trauma do tornado e suas consequências.“Vamos continuar a vida”, acrescenta ela. “Ficaremos bem, com o tempo.”- O milagre de “sobreviver” -O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, cuja própria parcela de tragédia pessoal levou alguns a chamá-lo de “consolador-em-chefe”, deve visitar Dawson Springs nesta quarta-feira para acalmar uma comunidade traumatizada.Na escola de ensino médio local, convertida em um abrigo de emergência, as famílias garimpam roupas, alimentos e brinquedos doados.Um menino pega um bichinho de pelúcia e olha para o pai, na esperança de colocá-lo em seu carrinho.Jonathan Storms, diretor de serviços e recursos familiares para jovens da escola, expressa sua admiração pela forma como os moradores de Kentucky se uniram para ajudar as vítimas do tornado.”Eles não vão ter uma casa no Natal, então… Se pudermos distraí-los da tragédia e do desastre, será lindo”, afirma Storms.Andrew, o adolescente, também elogia como seus vizinhos e estranhos estavam “trabalhando juntos” para ajudar os menos afortunados.Quanto ao que o feriado que se aproxima pode trazer, Andrew insiste em que o maior presente é estar vivo, apesar da ira da natureza infligida à sua comunidade.“Sobreviver é o milagre do Natal”, diz ele.