Diretor da Charlie Hebdo não lamenta publicação de caricaturas de Maomé

O diretor do semanário satírico Charlie Hebdo, Riss, disse nesta quarta-feira que “não se arrepende” da publicação das charges de Maomé, que tornaram a publicação alvo dos jihadistas, no julgamento contra o atentado de 2015 que dizimou a redação.
“Não quero viver sob a arbitrariedade maluca dos fanáticos”, disse o cartunista, cujo nome verdadeiro é Laurent Sourisseau, a um tribunal especial em Paris. “Não há nada a lamentar” sobre sua publicação, disse.
“O que lamento é ver como as pessoas são tão pouco combativas na defesa da liberdade”, afirmou. “Se você não luta pela sua liberdade, você vive como um escravo”, acrescentou.
A publicação de charges de Maomé, o profeta do Islã, em 2006, tornou o jornal um alvo dos jihadistas.
Riss, de 53 anos, foi gravemente ferido no ombro durante o ataque dos irmãos Said e Chérif Kouachi, que em 7 de janeiro de 2015 invadiu a sede do Charlie Hebdo em Paris e matou 10 de seus colaboradores.
“Crescemos sem imaginar que um dia poderíamos questionar nossas liberdades”, insistiu Riss, que substituiu Stéphane Charbonnier, conhecido como Charb, morto no ataque. No entanto, “a liberdade que desfrutamos” não cai “do céu”, lembrou.
O diretor do Charlie Hebdo, que falou longamente sobre as circunstâncias do ataque e os ferimentos infligidos pelos terroristas, também prestou uma homenagem emocionada aos seus “amigos” cartunistas mortos.
“A sensação imediata após o ataque foi que te cortaram em dois, como se tivessem cortado seu corpo em dois e tirado parte de você”, descreveu o cartunista, que, como vários outros sobreviventes, pensou que morreria no ataque.
“É outra mutilação que talvez seja ainda mais terrível do que a dos corpos. É uma amputação”, continuou Laurent Sourisseau, que vive sob a proteção permanente de guarda-costas e cuja vida mudou completamente desde os ataques.
“É como estar em prisão domiciliar. Tenho que avisar sobre tudo que faço”, disse o diretor do Charlie Hebdo, que decidiu republicar, no dia da abertura do julgamento, 2 de setembro, desenhos animados de Maomé, que valeu ao seu antecessor a sua inclusão na lista de alvos da Al Qaeda.
“Se tivéssemos renunciado ao direito de publicar esses desenhos, isso significaria que estávamos errados em fazer isso”, justificou Riss.
Desde 2 de setembro, 14 pessoas – três delas ausentes – estão sendo julgadas em Paris por terem prestado apoio logístico aos responsáveis pelo atentado ao Charlie Hebdo, que chocou a França e o mundo.
Os perpetradores do ataque foram mortos pela polícia em 9 de janeiro em uma gráfica a nordeste de Paris.

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