Joanesburgo (AFP) – Um combatente exemplar na luta contra o regime do apartheid na África do Sul, Ebrahim Ismail Ebrahim, que lutou à sombra de outros e foi preso duas vezes na penitenciária de Robben Island, morreu nesta segunda-feira (6) aos 84 anos. Sob o regime racista do apartheid, o militante de origem indiana passou da oposição não violenta à luta armada.Em 1963, ele foi preso por “sabotagem” e encarcerado junto com Nelson Mandela, um ícone com quem estudou.Ele também dividiu cela com outro futuro presidente sul-africano, Jacob Zuma. “Éramos próximos, dormíamos um ao lado do outro”, disse Ebrahim à AFP em 2021. Como outros, ele acabou por se decepcionar com seu ex-companheiro, acusado de corrupção durante seus anos de governo.”Na prisão, éramos agredidos, passávamos fome e ficávamos expostos a muito frio”, escreveu em suas memórias. “Éramos insultados e humilhados da maneira mais degradante. Quebrávamos pedras e comíamos miseravelmente. Durante anos, fomos regularmente forçados a ficar nus em um pátio coberto, às vezes no auge do inverno. Um de meus amigos morreu de frio”, relatou.Ebrahim refugiou-se nos estudos e obteve dois diplomas universitários.Nascido em 1º de julho de 1937, “Ebbie”, como era chamado, criou uma consciência política desde muito jovem. Em Durban, onde cresceu, praias, restaurantes, parques de diversões e até alguns bancos públicos eram reservados aos brancos.Quando criança, também assistiu duas vezes à prisão de seu pai por violar leis que impediam os indianos – uma categoria racial oficial – de circular livremente na África do Sul.- Sequestrado, torturado, condenado -Aos 13 anos, começou a frequentar comícios políticos com seu irmão e distribuiu folhetos. Desejava participar mais ativamente das manifestações contra a dominação branca, mas os movimentos de luta o afastavam por causa de sua pouca idade.Inspirado pelas campanhas de resistência pacífica de Mahatma Gandhi na Índia, assistiu aos discursos de Albert Luthuli, que na época era o líder do histórico partido ANC (Congresso Nacional Africano) e o primeiro africano a receber o Prêmio Nobel da Paz.Como indiano, não podia fazer parte do ANC no início. Ele então se juntou ao Natal Indian Congress.No Congresso do Povo de 1955, que deu origem à Carta da Liberdade, considerada o documento fundador da democracia sul-africana e de que Nelson Mandela se orgulhava, Ebrahim Ismail Ebrahim fez parte das delegações. Em 1960, o massacre de Sharpeville, no qual a polícia abriu fogo contra milhares de manifestantes e deixou 69 mortos, o levou a ingressar na luta armada.Libertado da primeira estadia na prisão, Ebrahim foi colocado em prisão domiciliar, mas se juntou ao ANC no exílio. Desta forma, multiplicou suas missões na clandestinidade, entre a África do Sul e vários países vizinhos.Em 1986, foi sequestrado por agentes do regime do apartheid na Suazilândia, país vizinho. Foi torturado, condenado por “traição” e devolvido à prisão de Robben Island.Definitivamente livre em 1991, ele foi eleito deputado nas primeiras eleições livres em 1994. Recentemente, Ebrahim expressou profunda preocupação com a desigualdade no país, longe do sonho democrático da jovem nação arco-íris. Mas mostrou sua confiança no presidente Cyril Ramaphosa. “Continua tomando medidas para erradicar a má gestão e a corrupção. Vamos nos recuperar”, disse ele à AFP.