Lítio de Portugal, possível condutor da revolução do carro elétrico na Europa

Lisboa (AFP) – A agência reguladora do meio ambiente de Portugal decidirá no próximo ano se a Europa terá uma grande reserva de lítio, um dos elementos cruciais na corrida global para a eletrificação da indústria automobilística.Especialistas acreditam que Portugal abriga a maior reserva deste mineral da Europa. Ao lado do níquel e do cobalto, o lítio é uma matéria-prima preciosa, imprescindível na produção de baterias elétricas para veículos.A demanda está no auge, enquanto as montadoras tentam produzir carros com baixas emissões de poluentes e os governos atuam para acabar com os veículos que usam combustíveis fósseis, em uma batalha contra a mudança climática.Mas as minas de lítio ficam principalmente na Austrália e a América do Sul, e a China é o país que controla a cadeia de distribuição. As reservas portuguesas representam uma oportunidade para reduzir a dependência europeia de outras potências.- A febre do lítio -A empresa de petróleo portuguesa Galp Energia e a produtora sueca de baterias elétricas Northvolt assinaram um acordo para construir uma das maiores refinarias de lítio da Europa.A um custo avaliado de 700 milhões de euros (787 milhões de dólares), a instalação no norte de Portugal permitiria o processamento de material suficiente para produzir baterias para 700.000 veículos, anualmente, até 2026.Para isto contam com o fornecimento da empresa britânica Savannah, que afirma possuir uma das maiores reservas de lítio da Europa ocidental no nordeste de Portugal e aguarda a aprovação da agência reguladora.O grupo português Lusorecursos também apresentou um estudo de impacto ambiental para abrir uma segunda mina nesta região, que teria sua própria refinaria.A “febre pelo ouro branco” do lítio em Portugal acontece depois que o grupo canadense Rock Tech Lithium decidiu investir 470 milhões de euros (US$ 530 milhões) em uma unidade de lítio na Alemanha a partir de 2024.Todos os projetos buscam estimular na Europa as reservas independentes de um recurso estratégico do qual a China controla mais de 40% da produção mundial e quase 60% da capacidade de refino global.A Agência Internacional de Energia calcula que a demanda por esse recurso aumentará 42% entre 2020 e 2040, em parte estimulada pelo esforço de eletrificação da indústria automotiva.O aumento da demanda é acompanhado de mais investimentos em tecnologia para melhorar as capacidades de produção. Este mês, por exemplo, a empresa químico portuguesa Bondalti anunciou um acordo com grupos australianos para testar um novo método de refino do lítio extraído da América do Sul.- Demanda crescente -O ministro português do Meio Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, celebrou o bom momento e afirmou que o governo baseia a estratégia industrial nos recursos naturais de Portugal.No entanto, a licitação atrasada para os direitos de prospecção de oito depósitos potenciais não acontecerá antes das eleições legislativas de 30 de janeiro, disse.Também será necessário esperar até o início de 2022 pelo veredicto da agência reguladora portuguesa sobre a mina da Savannah.Embora pareça paradoxal, a extração desse recurso essencial para a transição ecológica também gera preocupações ambientais.”A exploração do lítio não pode virar uma estratégia nacional que nos permita extraí-lo de qualquer forma e a qualquer preço”, disse Nuno Forner, da ONG ambientalista Zero.O ativista não descarta uma decisão “surpresa” da agência reguladora, mas espera a aprovação do projeto com certas condições.Em Covas do Barroso, cidade remota onde fica a mina de lítio da Savannah, o projeto provoca preocupação.”Já sabemos que são os poderes político e econômico que decidem”, disse Nelson Gomes, presidente de um grupo local contrário ao projeto.Para ele, a reserva “destruirá terra agrícola, desviará riachos e vai criar pilhas de dejetos”. O diretor executivo da mineradora, David Archer, garante que a empresa contempla 238 medidas para “eliminar ou minimizar” o impacto do projeto, com um investimento de 15 milhões de euros (17 milhões de dólares).