Meninas do Benfica estreia no Canal Brasil

Meninas do Benfica estreia no Canal Brasil | Foto: Divulgação
As manifestações populares de junho de 2013 são o mote para narrar a história das Meninas do Benfica na série criada por Roberta Marques, que estreiou nesta quarta-feira (02) no Canal Brasil. A produção cearense e majoritariamente feminina integra a programação do Mês da Mulher na televisão, em cadeia nacional. Em Fortaleza, aconteceu a pré-estreia nesta terça-feira (01), no Cineteatro São Luiz
A série foi desenvolvida com recursos públicos operados ou geridos pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), por meio da Chamada Pública BRDE/FSA PRODAV 05/2013, e foi produzida com recursos da chamada pública PRODAV 01/2013 da ANCINE/FSA/BRDE. Para o lançamento, contou com apoio da Prefeitura Municipal de Fortaleza e do Cineteatro São Luiz.
As meninas do Benfica 
A série de oito episódios se passa em junho de 2013, quando as manifestações mobilizam milhares de jovens em todo o país. Em Fortaleza, Sandra, Iara, Keyla e Andrea, estão nos preparativos da última transmissão do canal Meninas do Benfica, um projeto para YouTube que as uniu desde o primeiro ano da faculdade de Comunicação Social. Por quatro anos, as quatro melhores amigas debateram e discutiram tudo o que lhes atravessava. 
Contagiadas pelas “Jornadas de Junho”, as quatro amigas vão às ruas na capital cearense.  Suas ações interferem diretamente nos seus planos e sonhos pessoais. Tomadas por uma nova consciência política, as amigas se vêem diante de grandes dilemas existenciais e da emergência em amadurecer. Nesse caminho, Sandra, Iara, Keyla e Andrea vão descobrir que a política se faz em todos os momentos – não só nas eleições. Elas vão entender que faculdade da vida está apenas começando e que o Canal Meninas do Benfica tem uma importância imensa para elas, para a cidade, para o Brasil.
Uma série sobre mulheres, feita por mulheres 
De acordo com a Agência Nacional de Cinema (Ancine), na pesquisa Participação Feminina no Audiovisual Brasileiro de 2018, a participação das mulheres em funções como Direção, Roteiro e Direção de Fotografia vai de 12 a 25%. Diante do cenário de desigualdade no mercado, Roberta Marques e o produtor executivo, Maurício Macêdo, decidiram formar uma equipe majoritariamente feminina, a partir da definição da participação de mais uma diretora – Luciana Vieira.
Cerca de 100 pessoas trabalharam direta e indiretamente na produção, sendo que 64% da equipe foi de mulheres, incluindo cargos como roteiristas, diretoras, assistentes de produção, além de direção de arte e fotografia”, destaca Roberta. Também nos pautamos pela diversidade, para fazer valer a inclusão no audiovisual e nos surpreendemos como esse mercado evoluiu depois do investimento em políticas públicas de formação no Estado. Nossa equipe toda cearense e bem qualificada”, diz. 
Sobre o elenco, Andreia Pires fez o casting juntamente com as diretoras. Segundo Roberta, Andreia tem um envolvimento profissional muito dedicado com atrizes e atores de Fortaleza e, por meio de vivências comandandas por ela, se deu a escolha das Meninas do Benfica. De um grupo de 12 meninas, foram selecionadas oito e depois as quatro protagonistas: Larissa Goes, Ariza Torquato, Amanda Freire e Lua Martins. Elas são ultra talentosas. Cada uma no seu estilo de atuação e isso é muito bom, pois definiu a personalidade de cada uma das personagens. No conjunto, elas têm uma química impressionante e se doaram de verdade para virarem as melhores amigas nas telas, elogia.
Da ideia às telas de cinema e TV 
A gênese do projeto Meninas do Benfica se deu em junho de 2013. Eu estava acompanhando meu filme RÂNIA no Festival de Cinema Brasileiro de Nova Iorque e no dia 17, o dia daquela manifestação gigante que ocorreu no Rio de Janeiro, em Brasília e São Paulo, eu passei horas on-line assistindoaos protestos. Fiquei chocada, assustada, confusa e fascinada. Até porque, como me considero umafotógrafa e cinematógrafa de rua, em outras palavras, uma andarilha que coleta e coleciona imagens nas ruas, cidades e viagens, eu queria era estar ali, filmando e fotografando os protestos, relembra Roberta. 
Temas políticos e/ou sociais muitas vezes são a base das histórias que ela escolhe escrever. Nesse sentido, poderia dizer que essas são um híbrido de documentário e ficção. A juventude feminista, anti-racista e anti LGBTQIA+fobia das Jornadas de Junho forma a porção documentário da série. Já a porção ficção, a inspiração para ousar fazer meu primeiro drama seriado, veio de uma forte paixão por duas séries que assisti nessa época: Girls, da norte-americana Lena Dunham, e a dinamarquesa Borgen, que tem como protagonista uma candidata a ser a primeira primeira-ministra mulher do país, afirma.
A fase de desenvolvimento da série se deu entre 2014 e 2016, quando o projeto recebeu apoio do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual). Roberta, então, convidou Letícia Simões e Armando Praça para desenvolveram o roteiro em conjunto. Com o projeto desenvolvido, Maurício Macêdo assume como produtor executivo. Em 2018, com novo apoio do FSA, dessa vez para produção, Luciana Vieira passa a integrar a equipe de roteiro e co-dirigir os episódios. 
Essa entrada da Luciana foi importantíssima, porque, assim como eu, além de ser roteirista e diretora, a Lu é também produtora dos filmes dela, e isso nos dá uma firmeza para realizar. Ela foi uma grande parceira na série. O mesmo posso dizer do Maurício, que fez um trabalho potente e ao mesmo tempo delicado, para levantar e produzir Meninas do Benfica. Contamos ainda com Isabela Veras, desde a pré-produção, com quem eu já tinha trabalhado no Rânia e sabia que a parceira dos dois só somaria em eficiência e qualidade da série, ressalta a diretora.
Na fase de pré-produção também ficou claro para Roberta que a série deveria ter muita música, não só como trilha, mas também como elemento de narrativa, para dar ritmo aos episódios. “A música é muito presente na minha vida e no meu trabalho. Escuto de quase todo estilo e de todos os tempos. Nessa época, conheci a obra da cantora e compositora cearense Clau Aniz e me apaixonei pelo álbum dela. A partir daí, passei a ouvir muita coisa do que estava sendo produzido aqui na cidade”, conta. “Então me deparei com Mona Gadelha – que admiro e reverencio desde que a ouvi no álbum Massafeira – e daí para que a convidasse para pensar a trilha da série comigo foi muito rápido, pois fez todo sentido ter uma pessoa com a experiência dela supervisionando esse trabalho de curadoria das músicas de jovens artistas cearenses”, revela.
A produção da série, então, se estendeu a 2019, sendo que a pós-produção se deu ao longo de 2020 e primeiro semestre de 2021. As locações foram em sua grande maioria em Fortaleza, mais especificamente no Poço da Draga e no Benfica. Sobre a relação dela com o bairro que dá nome à série Roberta explica: “sou de Maranguape e vim morar em Fortaleza na minha adolescência. Foi lá que fiz aula de violão, no conservatório, e de fotografia, na Casa Amarela. Cursei Letras na UFC e fui às exposições do MAUC. E aí tem o Carnaval do Benfica, enfim, e umas festinhas nos anos 2000. Pra mim, é uma relação de formação mesmo, pessoal e profissional”. 
“Desconfio que fazer Meninas do Benfica foi tentar viver de certa forma uma parte da vida na cidade que deixei, pois escolhi viajar e estudar fora porque na época não existia formação em audiovisual no estado. Se eu fosse uma menina do Benfica hoje, não sei se escolheria sair daqui”, diz. “Por fim, a série é uma parte da minha filmografia que chamo de Cartas de Amor para Fortaleza, que são trabalhos que nascem do meu desejo de filmar em casa”, conclui.