Bagdá (AFP) – Nas eleições, na formação de governos ou em manifestações contra o poder, em todos os momentos importantes da vida política iraquiana, um homem é regularmente responsável por pender a balança para um lado ou para outro: o polêmico e multifacetado Moqtada al-Sadr.Mais do que nunca, o ex-chefe de milícias paramilitares, usando um turbante preto que o identifica como descendente do profeta do Islã, Maomé, tornou-se figura indispensável nas negociações para formar um novo governo no Iraque, apoiado por sua imensa base popular. Seu movimento, a corrente sadrista, tornou-se o principal bloco no novo Parlamento, passando de 54 para 73 cadeiras (de 329) nas eleições antecipadas de 10 de outubro, de acordo com os resultados divulgados nesta terça-feira (30) pela comissão eleitoral.Fugindo da mídia e orador medíocre, é capaz de fazer reagir toda a classe política com um tuíte, e de mobilizar em um país onde a juventude é a maioria. Segundo o especialista em Iraque da Universidade de Singapura Fanar Haddad, “os sadristas são parte integrante da classe política e sempre estiveram entre ministros e funcionários do alto escalão”.”É um personagem de itinerário sinuoso”, resume Karim Bitar, diretor de pesquisa do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris).”Um encrenqueiro nacionalista antiamericano durante a guerra do Iraque, que depois se alinhou com a Arábia Saudita e, de repente, deu uma guinada radical e se aproximou novamente dos iranianos”, os grandes inimigos de Riade, ressaltou.Nascido há 46 anos em Kufa, perto da cidade xiita de Najaf, no sul do Iraque, homem de corpo imponente, rosto redondo e barba grisalha é descrito por pessoas próximas como alguém de temperamento explosivo.- “Resistente” -Quando tinha apenas sete anos, Saddam Hussein eliminou o primo de seu pai, o grande pensador xiita Mohammad Baker. Em 1999, o ditador assassinou seu pai, Mohammed Sadek Sadr, ícone de um xiismo militante.Graças a essa linhagem de prestígio, Moqtada al-Sadr foi impulsionado a partir de 2003 à liderança da “resistência” xiita – comunidade majoritária no Iraque – à ocupação dos americanos. Um ano depois, al-Sadr, um dos poucos políticos que viveu no Iraque sob Saddam Hussein enquanto os outros estavam no exílio, criou o Exército Mahdi.Ele, porém, dissolveu a milícia mais poderosa do Iraque, com 60.000 combatentes, ao final de um conflito com as forças do primeiro-ministro Nuri al-Maliki.Quando este último chegou ao poder em 2006, Moqtada al-Sadr desapareceu e só reapareceu em 2011 no distrito de Al-Hannana de Najaf, onde vive desde então. Ele acabara de passar quatro anos em uma escola religiosa em Qom, Irã.Ele, cujos apoiadores entoam regularmente em suas manifestações anticorrupção “Irã fora, Bagdá livre”, apareceu em setembro no país vizinho ao lado de seu guia supremo Ali Khamenei. Se essa visita surpreendeu nas ruas iraquianas, para um especialista em assuntos iraquianos-iranianos, Moqtada Sadr cruzou a fronteira para “buscar proteção porque temia uma tentativa de assassinato”.Prova disso, dizem os especialistas, foram os incêndios nas sedes das forças de Hashd al-Shaabi, dominadas por grupos pró-Irã, em meio ao caos dos protestos contra o governo. Para eles, esses eventos foram um “acerto de contas” de Moqtada Sadr.  – Antropólogo -“Ele é antropólogo”, diz Renad Mansour, pesquisador do think tank Chatham House. Mas, “ao acompanhar os movimentos das ruas, ele se contradiz de um ano para o outro”.Assim, se ele permitiu a formação do governo de Adel Abdel Mahdi, juntou-se um ano depois aos manifestantes que reivindicaram sua queda. Apesar de suas mudanças de posição, ele mantém a maior base popular do país, pronta para obedecê-lo quase cegamente, principalmente em Sadr City, sua fortaleza em Bagdá e o distrito mais densamente povoado do Iraque. Foi ela quem paralisou o país em 2016, tomando a Zona Verde de Bagdá e, portanto, as instituições mais importantes do Iraque.