Tutu e Mandela, unidos contra o apartheid apesar das discordâncias

Joanesburgo (AFP) – Eles se estimavam e se respeitavam, mas também se criticavam. Desmond Tutu, que morreu no domingo (26), e Nelson Mandela se uniram para vencer o apartheid na África do Sul, mas estas duas figuras históricas do país nem sempre estiveram de acordo em tudo. “Eles tinham uma relação complexa, baseada no mesmo compromisso pela justiça e em uma amizade profunda, que lhes permitia discordar” um do outro, explica à AFP o cientista político sul-africano William Gumede. Tutu, um homem de fé – arcebispo da igreja anglicana na Cidade do Cabo – que defendia a não violência e perseguidor incansável das injustiças, tinha a cruz como um escudo contra o regime racista. Por sua vez, Mandela, 13 anos mais velho, decidiu recorrer à luta armada. Inimigo público número um e preso político, ficou encarcerado por 27 anos.   O primeiro morreu no domingo ao amanhecer, enquanto o segundo morreu há oito anos, também em dezembro, mas no dia 5.  Durante muito tempo, ambos defenderam a mesma causa, mas cada um de seu lado. Mandela com a força tranquila que o caracterizava e Tutu com seu estilo volúvel e encantador. Os dois eram tenazes e carismáticos. Junto com outros camaradas, sua ação concertada acabou com o apartheid há 30 anos.  Ao sair da prisão em fevereiro de 1990, Nelson Mandela passou a primeira noite em liberdade na casa de Desmond Tutu, na Cidade do Cabo.  Em sua autobiografia “Longa Caminhada até a Liberdade”, Mandela conta que preferia dormir em um bairro pobre da Cidade do Cabo a “um bairro branco”.   Ao chegar à residência de Tutu, Mandela caminha de mãos dadas com o arcebispo e a imagem dos dois juntos entrou para a história. – ‘Às vezes estridente, muitas vezes tenra’ -Eleito o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994, Mandela nomeia Tutu como responsável pela Comissão da Verdade e da Reconciliação encarregada de esclarecer os crimes do apartheid. Um no comando do país, e o outro ocupado com a reconciliação da “nação arco-íris”.  Contudo, desde o começo da transição pós-apartheid, houve disputas. O religioso denunciou salários, carros de serviço e outras vantagens dos ministros de Mandela.  Vendo nele a reminiscência de um sistema de privilégios herdado da era colonial, o arcebispo da Cidade do Cabo acusou quem deveria ser o presidente de uma nova era de se comportar como um “político comum”.  Para Tutu, Mandela tinha um calcanhar de Aquiles: o partido Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês). “Uma fraqueza maior em alguém quase sem defeitos”, disse o religioso uma vez a uma emissora de rádio. O arcebispo censurava o estadista por não conseguir conter a corrupção no partido no poder. Além disso, a desconfiança de Tutu com o ANC apenas cresceu com os sucessores de Mandela, e também foi um grande crítico dos erros de Thabo Mbeki na luta contra a aids. Sob a presidência corrupta de Jacob Zuma, Tutu jurou que não voltaria a votar no partido. Quando Mandela faleceu em 2013, o ANC não o convidou para o funeral.  No entanto, o escândalo e a humilhação do arcebispo se tornam públicos, fazendo com que o partido fosse obrigado a reconsiderar. Tutu finalmente deu sua bênção em uma cerimônia de homenagem em Soweto, agradecendo a Deus o “tesouro maravilhoso” que foi Mandela. No domingo pela tarde, o presidente Cyril Ramaphosa, evocando as críticas de Tutu ao ANC, apelou a Mandela, ao lembrar suas palavras sobre Tutu: “Sua voz é às vezes estridente, muitas vezes tenra, mas nunca assustada e raramente sem humor.” Além disso, Mandela também dizia: “Se Desmond [Tutu] for para o céu e não puder entrar, então nenhum de nós entrará!”